sabrina pacca
A Associação Brasileira de Embalagens (Abre) afirma que 46% das embalagens de vidro são recicladas no Brasil, somando 390 mil toneladas por ano. Já a Associação Brasileira de Alumínio (Abal), informa que o País reciclou 324 mil toneladas de alumínio, no último ano, ficando acima da média mundial, que é de 29,3%. A Associação Brasileira do Papelão Ondulado (ABPO), por sua vez, divulga que a taxa de reciclagem do material brasileiro é de 74%.
No entanto, em Mogi das Cruzes, os catadores de lixo reciclável se mostram na contramão da história. A reportagem de O Diário constatou que dos 17 trabalhadores selecionados para atuar na Usina de Triagem, montada pela Prefeitura e administrada pela Stralu – concessionária da coleta de lixo na Cidade – apenas sete estavam atuando e muito insatisfeitos.
A usina, localizada na Vila São Francisco, em Braz Cubas, tem muito lixo seco acumulado sem separação e boa parte dos jornais, caixas de leite e papelão já manipulados não foi vendida. "A culpa é da crise mundial", argumenta a catadora Jovelina Bispo Santana, 58 anos, moradora de Jundiapeba, que chegou na usina há quatro meses. Jovelina, que sempre trabalhou como operária em fábricas da Cidade, não teve outra opção para ganhar dinheiro, quando perdeu o emprego, a não ser começar a viver do lixo. "Antes era pior. A gente tinha que separar o lixo seco do úmido lá na Volta Fria, debaixo de chuva, sol e muita lama. Às vezes, eu ficava doente. Acho que é muito sujo, né? Mas tomava um Doril e ficava boa no dia seguinte. Apesar de tudo, ganhávamos mais, naquela época. Agora, nesses meses que atuo aqui na usina, só consegui R$200,00, além do salário mínimo que recebemos da Stralu. É que a crise está brava e as empresas não estão comprando a matériaprima, só o alumínio e o plástico", explica a catadora, salientando que deseja que mais empresas comprem o material reciclável. Mesmo com dificuldades, Jovelina garante que não trocaria o trabalho como catadora por um outro com carteira assinada. "Eu gosto. Já me acostumei a não ter patrão e a mexer com o lixo. O lixo é a minha vida", destaca.
Também descontente, estava Nilton Gonçalvez, 48 anos, retificador mecânico, que não atua no ramo há muitos anos por falta de oportunidade. Morador do Conjunto Residencial Vereador Jefferson da Silva, em César de Souza, Gonçalves viu na reciclagem a única solução para sustentar mulher e filhos, mas não está conseguindo. "O jornal não está sendo vendido. Não há compradores. O isopor só acumula aqui na usina. O que mais vende é alumínio e plástico. Recebo R$0,80 por um quilo de qualquer material plástico. Está muito difícil sobreviver aqui. Os catadores que não estão na usina ganham mais, por conta própria. É por isso que nossos colegas estão faltando no trabalho. Qual é a vantagem de ficar aqui? Espero que melhore um pouco, nos próximos meses", anseia o catador.
Hoje, apenas uma empresa compra o material recolhido e manufaturado na usina de triagem. A Riviera, como é chamada a empresa, compra o que lhe convém: principalmente ferro, plástico e alumínio. De acordo com o secretário municipal do Verde e Meio Ambiente, Romildo Campello, as explicações para a queda do rendimento por meio da venda dos recicláveis se devem a alguns fatores. "Realmente, a crise contribuiu para essa queda mas há uma outra hipótese: a oferta é maior do que a procura, principalmente dos papelões e jornais. Vamos estudar uma forma de resolver essa situação, com planejamento e organização", destaca Campello (veja matéria nesta página).
Individual ou coletivo?
Segundo o Movimento Nacional dos Catadores de Material Reciclável duas condições são essenciais para o trabalho da categoria. A autogestão, que é a prática econômica em que os trabalhadores são os donos das ferramentas e equipamentos de produção, sem patrões, tendo a decisão, o planejamento e a execução sob controle dos próprios catadores e o apoio mútuo dos colegas de trabalho. Em Mogi, a primeira condição é desejada por quem vive do lixo. A segunda, não. Apesar de uma aparente atividade coletiva, na usina de reciclagem pode-se notar a vontade do individualismo. "Lá na Volta-Fria era melhor porque cada um era por si. O que eu achava lá, eu ficava para mim. Aqui a gente divide", comenta Jovelina, uma das catadoras contratadas pela Stralu.