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  • CRÔNICA - AMANDA MORAES

  • Dá um trabalhão…

    É… ser mulher dá um trabalhão. Não, não estou falando as horas que passamos na depilação, no cabeleireiro, na manicure. Nem de todo o tempo e esforço que investimos em dietas, atividades físicas ou na frente do armário, tentando adivinhar qual é a melhor roupa para aquele dia. E, depois de decidirmos, nos olhamos no espelho e resolvemos fazer outra tentativa. E outra. E mais outra. E ainda mais outra. Até que a gente se dê por satisfeita ou, pelo menos, que o cansaço (ou o relógio) nos vença.

    Ser mulher dá mesmo um trabalhão. Mas não é porque muitas de nós encara jornadas duplas e até mesmo triplas, e nem sempre tem o retorno ou o reconhecimento adequado. Ah… e se as pessoas que nos cercam soubessem o quanto vale para nós um simples "obrigado", um "parabéns", "bom trabalho". Se elas soubessem o poder que isso tem para nos manter funcionando…

    Se eles soubessem como ser mulher dá um trabalhão. Não, não é porque a gente tem de brigar todos os dias para ser respeitada. Nem porque a gente não quer ser vista como "apenas" uma mulher, um pedaço de carne. Ou ainda porque a gente tem de ficar o tempo inteiro em alerta, para não nos tornarmos mais uma vítima da violência. E, quando isso acontece, perceber no olhar das pessoas o julgamento e a condenação, como se tivéssemos causado tudo aquilo.

    Mas, nem é por isso que ser mulher dá um trabalhão. Não é pelos momentos que perdemos com nossa família e amigos, porque precisamos estudar e trabalhar para mantermos nossa independência. Não é porque muitas mães perdem os primeiros passos de seus filhos, porque precisamos de um emprego para oferecer um futuro a eles. Nem por conta da culpa que bate porque ser moderna e independente parece ter virado sinônimo de ausência.

    Ser mulher dá mesmo um trabalhão… Não é porque hoje em dia está tudo tão maluco, que a gente está tendo de reaprender a nos relacionarmos. Nem porque a gente não sabe o que esperar de um homem. Será que ele vai ligar? Será que ele espera que eu ligue? Será que ele me achou fácil? Será que devo me fazer de difícil? Será que ele é legal? Será que ele não vai partir o meu coração?

    Pois é. Ser mulher dá um trabalhão, né?! Não é por conta do tempo que precisamos para entender o que os homens estão pensando, dizendo ou melhor, querendo dizer. Não é porque temos de fazer verdadeiras conferências com nossas amigas, criarmos teorias complexas e logarítimos infinitos para chegarmos a pelo menos uma possibilidade aceitável para explicar porque o cara não ligou.

    Ser mulher dá, de verdade, um trabalhão. Porque somos tão complexas que, muitas vezes, temos dificuldades para entender nossos próprios pensamentos, nossos próprios sentimentos. Porque as coisas não são tão simples como parecem, nem tão complicadas como acreditamos. Ser mulher dá um trabalhão porque nosso modo de ser, sentir, pensar, amar, fazer, trabalhar, criar, e conjugar qualquer outro verbo é tão nossa, tão única, que nem mesmo uma mulher é igual a outra. E dá muito trabalho conseguir juntar isso tudo. Dá um trabalhão sermos tantas em uma. O que dá um trabalhão, de verdade, é sermos únicas. (Texto publicado originalmente no site Tempo de Mulher)

     

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