Passara-se mais de um mês desde a entrevista de Tomé com o príncipe Nithath e a popularidade do apóstolo, face ao assistencialismo patente de sua missão que vira, pela força imperiosa das circunstância, transmutar-se em outra, chegara aos píncaros. Por onde quer que andasse, arrastava consigo legiões de adeptos, mas não perdia a humildade de quem se via como um mero servo de Cristo, seu Deus. Madras passou, então, a assistir a uma estranha movimentação. Marajás egressos das mais diversas plagas da Índia chegavam em longas comitivas transportados em liteiras ajustadas aos lombos de enormes elefantes. Aquele cortejo incessante de nobres não podia empreender outro rumo que não fosse o palácio de Nithath, onde as figuras ilustres eram regiamente hospedadas como convidados para um espetáculo que ninguém do povo sabia dizer qual seria. O certo é que a gente sem ocupação em Madras, mormente os velhos e os pirralhos, ficava à beira da estrada distraindo-se com a passagem dos figurões empolados do orgulho eivado da posição que daquela maneira tão acintosa ostentavam. Tomé buscava dar andamento a seu trabalho, mas com Madras agora convertida em uma cidade cosmopolita eram poucos os que se dispunham a ouví-lo. Àquela altura dos acontecimentos, era acometido de sombrios pressentimentos, não conseguindo um só instante, em que pesasse ser um homem tão experimentado pela vida, desanuviar a mente. Estranhava o comportamento daquele povo, que, de uma hora para outra, mostrava-se muito mais propenso a folias, qual se seus ensinamentos sempre valorizando a virtude que a pobreza poderia ter sequer houvessem calado nas almas de seus ouvintes. Lembrava-se de, por inúmeras vezes, ter parafraseado o é mais fácil um camelo passar por um ilhós de uma agulha do que um rico adentrar o reino dos Céus de Cristo com o objetivo de relativizar a importância tão exagerada dada à riqueza material. Foi no curso desses episódios que uma segunda convocação do príncipe chegou a seu conhecimento. Atinaria, afinal, com a razão da presença de um cortejo assim tão grande de marajás em Madras?
- x –
- Príncipe, vosso convidado, Mestre Tomé!
- Ah, quanta satisfação, meu nobre Tomé!
Tomé fitava o príncipe sem poder deixar de transparecer no olhar a desconfiança que o dominava, ainda mais porque os sacerdotes escribas davam início à transcrição para as pranchas de madeira de mais aquele diálogo pautado pela desproporcionalidade de forças:
- A que devo o convite, Príncipe?
- A princípio, à satisfação de uma mera curiosidade... Vocês cristãos veneram algum símbolo?
- Não
- E por que não?
- Bem, nosso Mestre Jesus jamais demonstrou cultuar qualquer símbolo que fosse, se bem que...
- Se bem que...?
- Se bem que viveu doloroso martírio na cruz, justamente a pena que Roma dá aos mais hediondos infames, aos assassinos sem piedade ou misericórdia, de sorte que a cruz de certa maneira guardamos como um símbolo doloroso que gostaríamos de não ver mas já se multiplica em réplicas pequenas nas mãos de muitos cristãos
continua na próxima semana