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  • CRÔNICA - NELSON ALBISSÚ

  • Semeadores de multidões

    Comer e andar faz parte da minha vida tanto quanto criar. Estou sempre escrevendo um livro, uma peça teatral, uma crônica, organizando uma ideia, lecionando ou dirigindo teatro, criando um projeto artístico, disciplinando agendas e festivais. Por isso, sei quanto custa transformar uma proposta, um projeto ou sonho em realidade. Cada folha de papel em branco, tela ou material bruto a ser esculpido é um gigante que o criador tem de vencer após o insight da criação. No processo da concepção não há milagre. Tudo é resultado do esforço que, às vezes, exige horas, noites, dias, meses, anos ou a vida inteira, não apenas do criador, mas também de quem convive com ele. O sonho em si não se basta, é preciso suor. A ideia sem o empenho para materializá-la é nada. Ela precisa ser construída, disciplinada, arranjada, forjada, conquistada, para se tornar realidade. Estou acostumado às imposições da criação. Dormir pouco faz parte do meu cotidiano. Trabalho durante o dia, leciono à noite, escrevo e ensaio de madrugada. Isso tudo atrelado aos meus deveres com a vida e minha cidadania. Montar um espetáculo teatral exige, além da criatividade, um grande exercício de paciência e jogo de cintura, para realizar junto com outras pessoas essa arte essencialmente coletiva.

    Mas, não precisa ser um criador, basta ter um pouco de sensibilidade, após passar uma noite num barracão de escola de samba, para reconhecer a grandeza dessa nação de artistas carnavalescos. É gente cortando, pintando, montando, costurando, colando, serrando, soldando, construindo engenhocas... Nesses afazeres, plenos de criatividade, estão todos entregues, às vezes comendo pão com mortadela, noites após noites, depois de terem cumprindo suas jornadas de trabalho, durante o dia. Estão ali irmanados construindo o sonho. Das mãos, inteligência e alma desse povo guerreiro nascem cores, formas e poesias. São pessoas douradas de suas próprias realezas e mais brilhantes do que seus tecidos prateados. Cidadãos que são reis e rainhas a quem toda sociedade deve ouvir e ter respeito. O desfile de uma escola de samba, artisticamente, é a mais completa apresentação e que elenca o maior numero de participantes. Só uma escola de samba agrega uma multidão de protagonistas, de forma tão ativa. Trata-se de um verdadeiro milagre coletivo, numa sociedade individualista, que estamos vivendo. Com a escola de samba na avenida vai uma comunidade inteira de pessoas subordinadas apenas ao sonho comum da alegria. Sem subordinação a ninguém, mas nem por isso anárquicos, seguem ao líder, a quem, alegoricamente, denominam de presidente. A apresentação de uma escola de samba na avenida não é um improviso, nem mesmo um acontecimento espontâneo, ela foi planejada, programada e estruturalmente organizada para receber o título de arte.

    E a contragosto dos saudosistas, que vivem de passado, acumularam idade, mas ainda não aprenderam que a vida é hoje, estatisticamente o Carnaval cresce em passos largos. São Paulo, chamado de túmulo do samba, pensa em aumentar seu sambódromo, o número de integrantes que cada escola de samba do Rio de Janeiro pode levar para Marquês de Sapucaí está limitado em 4000 pessoas, as arquibancadas de Mogi das Cruzes precisam ser ampliadas.

    Por tudo isso, e por viver preocupado em formação de público, a vocês, carnavalescos, tiro meu chapéu. Curvo-me diante da majestade de cada Escola de Samba, por colocar tantas pessoas na avenida e arquibancadas. Para mim, os carnavalescos são, sem dúvida, os semeadores de multidões.

     

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