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Sábado, 20 de Dezembro de 2014

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Lembranças trágicas e solidariedade

As pessoas que eram adultas nos anos 60 e 70 guardam lembranças e fatos trágicos que ocorreram da busca de recuperação da democracia, bem como a solidariedade de muitos. Também lembram das receitas de bolo no ‘Jornal da Tarde’, das quais muitas eram impossíveis de se realizar pois elas eram incompletas e estavam apenas cobrindo o espaço em que se deveria encontrar um texto que tinha sido censurado. Evidentemente também se recordam dos Lusíadas fatiado em trechos que cumpriam o mesmo papel das receitas de bolo – excluir do público informações que algum censor achava que as pessoas não tinham o direito de saber, que representavam risco para o poder dos que governavam o País. Uma vez ou outra passava alguma informação. Era festa gloriosa, às vezes por esta razão os jornais eram aprendidos a posteriori.

Frequentemente apareciam notícias de militares mortos, muitas vezes, jovens soldados que cumpriam a obrigatoriedade de prestar serviço militar, possivelmente alguns sequer tinham condições de entender o que e para que era aquela “guerrilha” interna. Outras vezes, era alguém dos guerrilheiros na luta para “retornar à democracia”, mas certamente também há recordações de pessoas pegas no fogo cruzado das forças em combate. Impressão trágica ficaram na memória como a da morte de uma jovem mãe grávida, com um filho de 3 ou 4 anos que em um assalto a banco, começou a chorar, aos gritos uma “guerrilheira” mandou que calasse a criança. A mãe pegou no colo a criança, que assustada continuou a chorar. A guerrilheira nervosa atirou na mãe e com um só tiro matou os três: a mãe, o menino no colo e o bebê na barriga e mais, destruiu uma família. Lembranças como esta de fato que aconteceu no assalto ao banco para obter dinheiro para os que lutavam para derrotar o regime militar não foram tão raros ou não existiam como parece que a “Comissão Nacional da Verdade” (CNV) se esforça ao máximo para ocultar, para que as novas gerações não conheçam mais do que meia verdade, ofuscando como se toda verdade só tivesse um lado. Entenda-se já que é evidente ser cunho ideológico, os vinculados a certos partidos ganham indenizações, aposentadorias (mesmo que não precisam e já tenham outras) mas envolvidas na mesma luta,  mas sem vínculo com tais partidos nada conseguem. Ignoram também as causas e condições que acabaram por gerar reação em cadeia das forças armadas temerosa de que se implantasse aqui um forma de gestão de esquerda sem opções como Cuba e China e seus corruptelas como Venezuela, Argentina. Muitos militares também não concordavam com o regime que se instalou e lhe fizeram oposição, apoiando a luta pela redemocratização, muito se deve a eles por se ter tido a anistia como foi conseguida.

A CNV pouco avançou ou se nega a avançar na busca de fatos novos para questionar a Lei da Anistia, talvez porque só tem representantes comprometidos com uma militância política, em busca de atenção dos formadores de opinião que buscam controlar com meia verdade. Quem eram realmente, como os integrantes do MDB, que lutavam para recompor um país democrático e os que assinavam para estar sempre no comando de um país comunista/socialista, ou que por sua idade e competência apenas serviam para fechar fileiras, eram condicionados a uma única visão de pseudo salvação? Quantos dos que hoje fazem e desfazem sempre estiveram no ponto neutro para saber, após a batalha, para pular para o lado vencedor?

Uma verdadeira CNV não poderia contar com pessoas já engajadas em uma pré-verdade, construída a priori. Deveria ser neutra, atuar judiciosamente, sem alardes,sem pressa em condenar ou em absorver, sem eleger heróis, sem estimular o revanchismo, capaz de mostrar todos os lados, os problemas, os temores, a violência de uns e de outros, capaz de reafirmar o NÃO A TODA VIOLÊNCIA instituído na Lei de Anistia, pelo que sempre os homens devem se unir.

A CNV deveria cuidar mais da história real, verdadeira de suas várias faces e menos do proselitismo político, que está na base de sua criação e que ela procura cumprir, mas para que fins? O que se quer é a verdade dos fatos, inteira, não uma versão dele gerada de um dado espelho ideológico. Tendo todos os fatos apresentados por inteiro, com transparência, em uma democracia, de cidadãos pensantes, livres, cada qual os interpreta sem que tenham que condicionar ou impor teorias e meias verdades como um todo, como sendo seu pensamento pessoal. SEM VIOLÊNCIA, COM LIBERDADE DE PENSAR E DE SER é que se vive em uma DEMOCRACIA de VERDADE.

Geraldina Porto Witter é doutora em Ciências, livre-docente em Psicologia Escolar; professora emérita da UFPa, do Unipê e da Unicastelo, coordenadora da Extensão e do Comitê de Ética em Pesquisa da Unicastelo e membro da Academia Paulista de Psicologia.

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