CAROLINE LOPES
Há cinco dias, Douglas Fernando Santana Firmino, 12 anos, era um menino em férias como qualquer outro. Depois de ser atropelado por uma moto na manhã da última sexta-feira, quando corria atrás de uma pipa na Avenida Francisco Ferreira Lopes, em frente à padaria Cintra, a realidade é outra. Ele está internado no Hospital Luzia de Pinho Melo, no Mogilar, onde teve o pé direito reimplantado. Douglas e a família, até o início da noite de ontem, torciam para que não houvesse rejeição aos pinos que ajudaram a reconstruir os músculos e veias. Caso aconteça o contrário, a amputação será inevitável. Ele perdeu vários dentes que, ao quebrarem, feriram-lhe a face. Além de dificuldade para comer, o jovem enfrenta dores no calcanhar esquerdo, machucado levemente durante a ocorrência, e incômodo por quase todo o corpo, tomado por escoriações leves.
O caso traz à tona o risco de se empinar pipa, brincadeira que ganha ainda mais adeptos no período de férias escolares. O perigo não está apenas nas crianças e adolescentes que correm atrás do brinquedo, sem prestar atenção nos automóveis. Há também a chance de pessoas serem cortadas com linhas repletas de cerol, mistura de vidro moído com cola de madeira e água, que é passada sobre as linhas a fim de que alguns tomem para si pipas alheias. Rabiolas enroscadas aos fios de eletricidade em vias dos mais diversos bairros evidenciam que é comum empinar pipas em lugares repletos deste tipo de fiação, inclusive próximos a torres de alta tensão. Diana Santana, 19 anos, irmã do garoto, contou o que o menino revelou à família. "Ele disse que o farol da Avenida fechou e ele iniciou a travessia. Quando estava a dois passos de chegar na calçada, foi atingido pela moto, que vinha do farol que abriu na outra rua. Com o impacto, meu irmão foi arremessado de volta ao lado oposto da avenida. Hoje [ontem] vão decidir se ele vai precisar amputar o pé. Desde ontem [anteontem] à noite, ele está com uma febre muito alta", disse.
Com os olhos marejados, Maria Santana, 67, lamentou o sofrimento do neto. "O pobrezinho reclama de fome e não consegue comer. No máximo duas colheres de sopa. Estamos todos rezando muito para não acontecer mais nada".
Depois de deixar a casa da família, na Avenida Anchieta, a reportagem encontrou, dobrando a esquina, o menino D. M., de 10 anos, andando pela calçada enquanto carregava uma pipa. Conhecido de Douglas, o garoto estava assustado com o acidente. "Nunca mais empino pipa em Avenida. Agora nem saio mais da minha rua. Estou com medo", confessou.
Já G.M., 16 anos, morador da Ponte Grande, estava com a pipa no alto quando foi abordado por O Diário, que perguntou ao menino se ele estava usando o cerol. Ele abaixou o olhar e não conseguiu esconder um leve sorriso. "Tem só um pouquinho na ponta porque eu achei este pipa na rua". A conversa foi interrompida por uma vizinha, que não quis se identificar. "A gente não agüenta mais esta molecada subindo em muro, destruindo telhados por causa de pipa. A vida virou um inferno", reclamou.
Ela não foi a única. "Devia de ter uma multa para os pais desses meninos. Minha antena vive quebrada por causa do cerol", disse o comerciante Genésio Pereira de Campos Filho. Egídio Carlos Oliveira era mais um vizinho incomodado com a brincadeira. "Deveria haver uma fiscalização. O perigo de acidentes é muito grande". Em um único quarteirão da Rua Avelino Pinto de Souza, na Ponte Grande, havia 11 pedaços de rabiola presos à fiação elétrica.
No Jardim Nova União, um grupo de oito meninos não poderia ter escolhido um lugar mais perigoso para brincar: as bases de torres de alta tensão elétrica situadas no final da Rua Coronel Cardoso Siqueira.
Na Rua Ernesto Ferreli, no mesmo bairro, L.M.S.M., 6 anos, aproveitava a manhã de férias. "Só deixo ele na rua durante a semana. Aos sábados e domingos é alto o movimento de carros", explica a mãe dele.
Valdir Eloy, técnico de manutenção, colocou em sua moto uma antena junto ao guidão a fim de proteger-se do cerol. "Tem cerol em todo lugar. A linha esbarra na antena e é cortada, evitando ferimentos".